Daniel Seidel*

Daniel Seidel durante participação no Seminário Estadual Políticas Públicas e Direitos Humanos, que terminou ontem (4) na UFMA. Foto: Zema Ribeiro

Estive nestes dias, 2, 3 e 4 de setembro, em São Luís, acompanhando o Seminário Estadual Políticas Públicas e Direitos Humanos, realizado pela coordenação das Pastorais Sociais do Regional da CNBB Nordeste V, Maranhão, com participação dos Movimentos Sociais, Povos Indígenas, Quilombolas, Comunidades Tradicionais, estudantes e professores universitários. Foi momento rico de renovar o compromisso e a esperança de que outro país é possível!

A dinâmica do seminário foi muito criativa: o ponto de partida foi a “tribuna popular”, quando os lutadores e as lutadoras sociais fizeram a “análise de conjuntura” a partir de suas realidades duras, no calor do golpe nacional (impeachment de Dilma) e no contexto das eleições municipais, onde a ausência do Estado se expressa de forma perversa. Para essas comunidades e povos tradicionais o golpe não começou agora. É uma realidade que levou à descrença que as instituições e o Estado (Nacional, Estadual e Municipais) poderiam trazer soluções. E à crença de que precisamos fortalecer a autonomia dos movimentos sociais e sua capacidade de organização e luta, buscando alternativas concretas de vida digna para nossos povos.

Que vitalidade e originalidade (re)conheci na “Teia dos Povos”; na “Rede Mandioca”; e na “Justiça nos Trilhos”, no “Moquibom” (Movimento Quilombola do Maranhão) e nos Povos indígenas e suas lutas por “retomadas de seus territórios tradicionais”, entre muitas e diversas que foram partilhadas! São vivências de aspectos concretos do Bem-Viver: reconhecimento dos saberes tradicionais; horizontalidade nas formas de organização e processos decisórios; reconhecimento das especificidades das identidades e da diversidade; unidade e agregação das lutas por direitos, acolhendo as demandas que gerem vida nas realidade; resistência e forte crítica frente à promessa de “desenvolvimento”, onde vem embrulhados os “grandes projetos” depredatórios da biodiversidade da natureza da Região de transição entre a Amazônia e o Cerrado; busca de alternativas econômicas baseadas em redes solidárias de comercialização dos produtos na lógica da economia popular solidária; longevidade da vida, cuidada com plantas medicinais e a alimentação orgânica e agroecológica, livre de transgênicos e agrotóxicos; crítica a práticas políticas viciadas pelo jogo de interesses pessoais e consumistas. O Bem-Viver já está acontecendo no Maranhão, mas ainda não pleno!

A visita à comunidade do Cajueiro, seguida de manifestação popular de rua “Fora Temer”, completaram o quadro de ações. Conhecer o lugar sagrado de produção e reprodução da vida da comunidade afrodescendente, mais que centenária do Cajueiro, no testemunho das lutas e dificuldades expressadas pelo Seu Davi, frente às ações de violação dos direitos do lugar daquela comunidade foi reafirmação do compromisso com a “Igreja em saída”, do Papa Francisco, que é capaz de reconhecer as “periferias existenciais”. O apoio das lutadoras/es sociais de norte a sul do Maranhão, a troca de experiências e a denúncia das agressões promovidas pelas empresas interessadas na construção do porto naquela reserva extrativista; fortaleceram a esperança da Comunidade em que será respeitada no seu direito sagrado de ficar e viver a partir de seus modos de vida tradicionais.

Foi pontuada a necessidade de articular a vivência das redes nos espaços urbanos das cidades, principalmente das maiores cidades do Maranhão, a partir dos movimentos que existem (“Em defesa da Ilha”, por exemplo) e do controle social e lutas que acontecessem desde os espaços dos Conselhos das Políticas Públicas (como foi partilhado pelo Conselho Estadual de Saúde). Desafios se colocaram em relação ao protagonismo das juventudes e, por conseguinte, do uso das tecnologias de informação e as redes sociais para fortalecer a utopia.

O martírio das lutadoras e lutadoras, expresso no “Caderno sobre os Conflitos do Campo”, lançado pela CPT durante o Seminário; nas histórias e testemunhos das agentes do CIMI; a presença discreta e firme dos Bispos que acompanharam; no testemunho das lutadoras/es presentes e no documentário sobre a 12ª. Romaria da Terra e das Águas, traduzem o compromisso de uma Igreja que luta, atenta à Laudato Si e que se coloca a serviço da vida das pessoas e comunidades mais empobrecidas do Maranhão, cobrando a realização de políticas públicas e se dispondo a fiscalizar as eleições municipais de 2016.

O professor Daniel Seidel é mestre em Ciência Política pela UnB, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP/CNBB), colabora com a assessoria das Pastorais Sociais da Comissão 8 da CNBB e participa da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

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