Experiências de resistências são apresentadas em Seminário. Foto: Zema Ribeiro

 

Um vasto painel da realidade de povos e comunidades do Maranhão foi traçado no segundo dia do Seminário Estadual Políticas Públicas e Direitos Humanos, realizado desde sexta-feira (2), no Auditório Central da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

O evento acontece até domingo (4), promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Regional Nordeste 5 (CNBB/NE5), Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), Conselho Indigenista Missionário (Cimi/MA), Pastoral da Criança e Associação de Saúde da Periferia do Maranhão (ASP/MA).

Pela manhã, em uma mesa formada por representantes do Conselho Estadual de Saúde, indígenas kaapor, Movimento de Defesa da Ilha, Teia de Povos e Comunidades Tradicionais, Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), Organização de Cidadania e Combate às Injustiças Sociais de Santa Luzia e Rede Mandioca, foram apresentadas diversas estratégias de resistência das comunidades.

A estrofe “já chega de tanto sofrer/ já chega de tanto esperar/ a luta vai ser tão difícil/ na lei ou na marra nós vamos ganhar” marcou o relato de representantes da comunidade quilombola de Charco, São Vicente Férrer, na Baixada Maranhense, onde o líder Flaviano Pinto Neto foi assassinado com oito tiros, em 30 de outubro de 2010. “Já vai fazer seis anos e o mandante continua solto, pois tem dinheiro”, afirmou uma representante da comunidade.

A ONG de Santa Luzia relatou a organização popular envolvendo 25 comunidades de uma área do município, e a demanda por uma estrada, cuja ausência as isolava e inviabilizava o escoamento da produção, a educação e a saúde, já que professores não podiam chegar aos povoados para dar aula e/ou doentes sair para serem atendidos em hospital ou posto de saúde na sede do município.

Surgida como uma alternativa para evitar o aliciamento de trabalhadores ao trabalho escravo, a Rede Mandioca lembrou seus 12 anos de existência e crescimento, a partir de uma experiência piloto em duas comunidades em Vargem Grande. Hoje, a articulação está presente em 27 municípios, contando 105 grupos produtivos filiados, num total de mais de 2.500 famílias envolvidas.

Após as falas de Ilse Gomes, professora do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, sobre as diversas formas de participação popular – ela é autora de Democracia e participação na reforma do Estado – e Daniel Seidel, assessor da CNBB, sobre as eleições municipais de 2016 e a necessidade de permanente mobilização e fiscalização, os cerca de 200 participantes do Seminário deslocaram-se, à tarde, até a comunidade de Cajueiro, zona rural de São Luís.

Participantes do Seminário visitaram o Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro

O grupo visitou o Terreiro do Egito, considerado um lugar sagrado para as religiões de matriz africana, tendo sido pioneiro nos cultos de umbana, candomblé, mina e terecô. Foi no Terreiro do Egito que Pai Euclides – pai de santo falecido em agosto de 2015 – iniciou suas atividades, antes de fundar a Casa Fanti-Ashanti, no Cruzeiro do Anil.

O intercâmbio foi um momento marcante da atividade. Na ocasião, cânticos católicos misturaram-se a cantos indígenas e músicas do repertório de Clara Nunes, num sincretismo cultural e religioso que reforçou a necessidade de apoio mútuo entre estes povos, para a superação de seus desafios e problemas.

Grupo visitou também a Associação de Moradores de Cajueiro. Foto: Zema Ribeiro

 

Após a visita ao Terreiro do Egito, a Associação de Moradores Proteção de Jesus do Cajueiro sediou outro momento de intercâmbio: lideranças comunitárias da comunidade apresentaram a história de lutas de Cajueiro contra a instalação de um porto privado na área, que significará o deslocamento de mais de 160 moradores, além do consequente prejuízo ao meio ambiente.

Segundo Seu Davi, morador da comunidade há 49 anos, as disputas contra as empresas envolvidas na construção do porto têm se acirrado desde 2014. Houve relatos de homens armados na área, ameaças, intimidação e bloqueio de ruas.

Fechando os trabalhos do segundo dia de seminário, o cineasta Murilo Santos lançou em primeira mão o documentário Em busca do bem viver, em que cobriu a realização da 12ª. Romaria da Terra e das Águas, realizada em Chapadinha ano passado, apresentando relatos de conflitos agrários em diversos municípios maranhenses.

O dia terminou com aplausos ao filme e gritos – que se ouviram desde a manhã e ao longo do dia – de “Fora Temer!”.

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